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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sobrevivente de 1972 se identifica com Chape: “Mensageiros da vida”

Bruno Ceccon São PauloSP

Ex-jogador de rúgbi, Roberto Canessa sobreviveu a acidente aéreo em 1972 (Foto: Divulgação)
Ex-jogador de rúgbi, uruguaio Roberto Canessa sobreviveu a acidente aéreo em 1972 (Foto: Divulgação)

O acidente sofrido pela delegação da Chapecoense na madrugada da última terça-feira mexeu com o médico Roberto Canessa. Sobrevivente do desastre aéreo que vitimou sua equipe de rúgbi em 1972, o ex-atleta uruguaio se identifica com as vítimas brasileiras e oferece conselhos.
O lateral esquerdo Alan Ruschel, o zagueiro Neto e o goleiro Follmann foram resgatados após o acidente sofrido nas imediações da cidade colombiana de Medellín. Assim como o jornalista Rafael Henzel e os tripulantes Erwin Tumiri e Ximena Suarez.
“Eles são mensageiros da vida. Precisam seguir adiante pelos amigos que se foram e consolar as famílias, porque ganharam uma chance de Deus para mostrar que a vida continua. Nesses momentos de reflexão, você se dá conta do que realmente é importante”, disse o médico em entrevista à Gazeta Esportiva.
Em outubro de 1972, com Roberto Canessa a bordo, o avião que transportava a delegação do Old Christians de Montevidéu a Santiago do Chile para um jogo contra o Old Boys caiu na região de Mendoza-ARG, na Cordilheira dos Andes. Dos 45 passageiros, 16 sobreviveram.
“Os sobreviventes precisam tomar uma posição de liderança, e não de vítimas”, aconselhou o ex-jogador do Old Christians. “Assim, poderão incentivar todas as pessoas abaladas pelo acidente. É necessário entender que erros humanos acontecem e saber perdoá-los. O tempo passa e você deve aceitar as coisas como são”, completou.
Então com 19 anos, a aproximadamente 3.500 metros de altitude e com frio intenso, Roberto Canessa passou 72 dias lutando pela vida antes de ser resgatado. Ao tomar conhecimento da tragédia em Medellín, o uruguaio lembrou a própria história e a morte do cantor Carlos Gardel, ocorrida em um acidente aéreo na mesma cidade, em 1935.
Uruguaios precisaram esperar 72 dias até o resgate em 1972 (Foto: Divulgação)
Sobreviventes usaram fuselagem do avião da Força Aérea Uruguaia como abrigo após queda (Foto: Divulgação)
“Eu me identifico com eles. Quando o avião para e você sente que está vivo, olha ao redor e pensa que é um afortunado, porque sobreviver a um acidente aéreo é praticamente impossível. Sofri uma pancada muito forte na cabeça e estava meio desorientado, mas sabia que havia me salvado”, recordou.
Alguns dos companheiros de Roberto Canessa morreram na queda do Fairchild Hiller FH-227 e outros não resistiram nos dias subsequentes ao acidente, marcados por uma avalanche. Sem alimentos, os sobreviventes comeram a carne dos passageiros que haviam falecido.
“As pessoas imaginam que isso foi o pior, mas para mim não foi. O pior foi a avalanche e quando encerraram as buscas. Comer os mortos é terrível, porque você pensa que vai morrer e ser comido também. Mas eu queria sobreviver e não tinha alternativa. O ser humano é um animalzinho como todos os outros. A carne é igual”, afirmou o médico.
Por meio de um rádio a pilha, os sobreviventes souberam que as buscas haviam sido encerradas pelas autoridades e decidiram partir em busca de socorro. Após 10 dias de caminhada, sem equipamentos adequados nem treinamento de alpinismo, Canessa e o companheiro Nando Parrado encontraram o chileno Sergio Hilario Catalán Martínez, quem providenciou ajuda.
“Apesar de ver que muita gente morria ao meu redor, pensava que havia esperança enquanto eu ainda estivesse vivo. Por um lado, parecia provável que todos morrêssemos. Por outro, sabíamos que a civilização estava a cerca de 80 quilômetros”, contou o médico.
Resgatado mais de dois meses após o acidente, Roberto Canessa concluiu seus estudos em cardiologia infantil e constituiu família. Apesar da tragédia que viveu na juventude, o médico conta que não enfrentou maiores dificuldades para retomar a vida.
Médico lançou livre em 2016
Médico lançou livro em 2016
“Ganhei uma chance que os outros não tiveram, então o que fiz foi aproveitá-la e agradecer a Deus. As famílias dos que não voltaram foram generosas e nos apoiaram muito. Vivemos no mesmo bairro e meus filhos foram ao colégio com os sobrinhos dos que faleceram”, contou, convicto em suas afirmações.
“Eu nunca sofri qualquer problema de consciência depois do acidente. Não vinha de uma guerra e não tive que matar ninguém. Apenas lutei para salvar minha vida, o que é uma luta ancestral do ser humano, de lutar para sobreviver contra a natureza”, afirmou.
Os sobreviventes mantêm contato com Sergio Hilario Catalán Martínez e recentemente ajudaram o chileno a colocar um marca-passo. Anualmente, no mês de outubro, os ex-jogadores de Old Christians e Old Boys se encontram para disputar a partida que não aconteceu em 1972 como homenagem aos falecidos.
O desastre aéreo vivido pela delegação do Old Christians inspirou diversos filmes e livros. No último mês de maio, em conjunto com o escritor Pablo Vierci, Roberto Canessa lançou a obra “Tenía que Sobrevivir”, editada pela Atria em espanhol e inglês. Aos 63 anos, ele atua como médico e palestrante motivacional em Montevidéu.

“Conto às pessoas como fiz para escalar minha montanha. Acho que não percebemos que a vida nos dá mais do que precisamos e nós fazemos menos do que podemos. Precisamos ser mais agradecidos. Não é necessário cair em um avião ou ter câncer para perceber o valor da vida”, ensinou.
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